segunda-feira, 9 de julho de 2007

INCLUSÃO DIGITAL

Muito tem se falado em “inclusão digital”, que é preciso levar a informática às camadas menos favorecidas, fazer com que os jovens das comunidades pobres tenham acesso a Internet igual ao da classe média, inclusive com o lançamento, por parte do governo, de um programa (mais um) de computadores populares. Mas será que essa é a solução para adequar esses desfavorecidos sociais a realidade de hoje?
Bem, para começar, realmente tem que dar oportunidade às pessoas das periferias para que possam aprender a usar esses aparelhos tecnológicos, até para entrar no mercado de trabalho, só que ninguém se lembra que para usar um computador é preciso ler o manual do aparelho, ler o que está na tela para saber o que fazer, ler os manuais dos programas que a maquina vai utilizar, produzir textos (como se fazia com as máquinas de escrever), enfim, é preciso, antes de tudo saber ler e escrever.
Como pode então o governo apregoar aos quatro ventos que é preciso fazer essa tão falada inclusão digital quando ele ainda não fez nem uma “inclusão literária”? E inclusão literária dita aqui não é o domínio das escolas literárias ou se tornar um especialista em literatura, é algo mais essencial, é simplesmente saber ler e entender o que foi lido, é saber usar a língua informal de sua comunidade, mas também a língua padrão para que possa se adequar aos padrões sociais de comunicação, é deixar de ser um analfabeto funcional.
No Brasil 60% dos jovens entre 15 e 24 anos nunca leram um livro na vida. A maioria da população com ensino médio completo é considerada analfabeto funcional, ou seja, essas pessoas conseguem decodificar as letras, formar palavras e ler o que está escrito, mas não conseguem entender nada do leu, além disso, elas não são capazes de produzir uma simples redação por total falta de conhecimento de vocabulário e regras gramaticais. Com um quadro como esse, como pode o governo falar em colocar um computador em cada residência, quando ainda não colocou um leitor competente em cada uma?
Novamente, é importante fazer sim uma inclusão digital, para que possamos, inclusive, competir em pé de igualdade com os países desenvolvidos, mas é importante fazer campanhas fortes de incentivo a leitura, melhorar os currículos escolares, facilitar o acesso aos livros,seja em bibliotecas públicas ou favorecendo a compra em livrarias, enfim, fazer com que esse jovem e até mesmo esse adulto se torne um usuário competente da língua, faça com que ele seja um leitor capaz de apreender o que foi lido, aí sim, quando esse quadro se reverter poderá se falar numa real inclusão digital, já que a social já terá sido feita e essas pessoas, que hoje tem dificuldade em manusear o controle remoto da televisão, poderão se tornar passageiros de primeira classe nesse universo virtual que é a Internet e o mundo da informática.

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