domingo, 16 de setembro de 2007

UM CRIME PERFEITO (PARTE I)

Pedro deitou na cama cansado. Seu peito subia e descia de maneira ritmada, tentando recompor o fôlego perdido. Olhou para suas mãos, estavam sujas ainda de terra e sangue. Não quis lavá-las. Queria que ficassem assim para sempre, como uma tatuagem que o lembraria a cada instante da sua dor e sua recompensa. O quarto estava escuro, mas mesmo assim conseguia ver toda a cena como num filme. Acariciava os lençóis que horas antes eram testemunhas de sua vergonha. Nem se deu ao trabalho de tirá-los da cama, lhe dava prazer o cheiro de sangue e sexo que impregnava o lugar. Não se arrependia. Não pensou em nada na hora, apenas que o mal devia ser retirado pela raiz, sua honra devia ser lavada, devia haver redenção para sua vergonha. Pedro relembrava e saboreava cada momento, cada grito, cada súplica. Deliciava-se com som de carne sendo cortada, ossos sendo partidos, o gosto de sangue respingado em sua boca.
Por ironia os dois foram enterrados um em cima do outro. Não tiveram tempo de reagir ou se explicar. O medo e a surpresa ainda estavam estampados em seus rostos quando Pedro jogou a primeira pá de terra na cova nos fundos de sua casa. Agora não ririam mais dele, não o enganariam mais. As duas pessoas em que mais confiava, Vânia, sua esposa há 15 anos e Mauro, seu amigo de infância. Não teve tempo de saber se era a primeira transa deles ou se já o enganavam há muito tempo. Também nem quis saber. A única coisa que lhe interessava ele já sabia: sua mulher estava trepando com seu amigo na sua cama enquanto estava viajando. Não quis avisar que a volta tinha sido antecipada, quis fazer surpresa, mas quem se surpreendeu foi ele. Ouviu rumores ainda da sala. Estava tudo apagado e o quarto com a luz acesa e a porta entreaberta. Eles nem ouviram seus passos de tão envolvidos que estavam. Pedro voltou ao quintal, abriu sua caixa de ferramentas, pegou o machado recém amolado na sua última viagem a Itatiaia e voltou para dentro da casa. Não disse nada. Aproximou-se da cama, olhou bem nos olhos dos dois que balbuciavam alguma desculpa esfarrapada que Pedro não ouvia. Mauro foi o primeiro, nem teve como reagir, quando tentou se enrolar no lençol sentiu a lâmina fria em sua cabeça. Toda a raiva de Pedro foi transferida para sua mão. O golpe foi certeiro. Atravessou a testa e ficou preso no osso frontal. Tirou o machado e foi atrás de Vânia que correra para o banheiro. Assustada não conseguia fechar o trinco. Pedro entrou e ainda conseguiu ouvir a esposa implorar por perdão. Era tarde, não havia perdão. O sangue jorrou em seu rosto e sua roupa. Estavam mortos. Tinha se vingado.
Não se preocupou com o sangue espalhado. Foi para o quintal e cavou um buraco bem fundo que coubesse os dois corpos. Primeiro levou o corpo de Vânia, mais leve, jogou na cova e voltou para pegar Mauro. O corpo dele era mais pesado, mas Pedro nem notava o peso, fazia tudo sem pensar muito, sua preocupação era apenas se livrar dos corpos. Tirá-los do seu convívio para que nunca mais se lembrasse da traição. Jogou o corpo do amigo por cima do de sua mulher. Era já madrugada, não havia viva alma que pudesse ver e estranhar aquele homem todo sujo enterrando alguma coisa em seu quintal. As casas estavam apagadas e nenhum vizinho ouvira qualquer ruído. Sua casa ficava no meio de um grande terreno e era impossível que alguém pudesse ouvir qualquer coisa.
Pedro acordou, sujo, cansado, não teve sonhos, não relaxou, apenas fechou os olhos e adormeceu. Olhou em volta, viu as manchas de sangue espalhadas pelo quarto, foi ao banheiro e se viu no espelho através do sangue seco. Lembrou-se de tudo. Não sentia arrependimento, na verdade não sentia nada, estava vazio. Deu-se conta de que devia limpar tudo e eliminar as provas. O machado tudo bem, havia enterrado com os corpos, mas tinha que se livrar dos lençóis, limpar tudo e, principalmente, tinha que inventar um motivo para a ausência deles. De Mauro era fácil, não era casado, sua família havia morrido, era sozinho e trabalhava viajando, se os vizinhos notassem sua ausência era só dizer que fora transferido para outro estado. Já sua mulher era mais complicado, mesmo vivendo longe dos familiares uma hora procurariam por ela e quanto aos vizinhos, era só dizer que tinha ido visitar os parentes, pelo menos por um tempo não o incomodariam.
Pedro limpou tudo, queimou os lençóis que eram a prova concreta, física da sua honra lavada. Foi trabalhar normalmente, agiu como se nada tivesse acontecido. Para os vizinhos e colegas do trabalho ele iria ficar algumas semanas sozinho devido a uma doença de algum parente de sua mulher, nada de extraordinário. Voltava para casa toda noite, jantava, via um pouco de tv e dormia cedo. Ele passou mesmo a acreditar na sua história e com isso foi criando uma rotina. À noite quando ia se deitar, porém, lembrava de tudo, dos dois juntos na cama, do vermelho do sangue, do barulho da terra caindo sobre os corpos. Acordava no meio da madrugada, sempre na hora exata das mortes, e pensava como seu crime tinha sido perfeito, sem provas, sem testemunhas, álibis perfeitos. No seu intimo se vangloriava da sua façanha. Passaram-se as semanas, numa monotonia prazerosa, Pedro deliciava-se das suas lembranças secretas, quando alguém se lembrava de Vânia ele dizia que ainda iria demorar um pouco para voltar e dizia com a segurança de que logo ela cairia no esquecimento.
(Continua...)

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