segunda-feira, 19 de março de 2007

O VÔO DA BORBOLETA (PARTE I)

Bárbara se olhou no espelho mais uma vez. Não que ela fosse vaidosa ao extremo, na verdade não gostava de se ver, não gostava de sua aparência, principalmente pela manhã quando ia trabalhar, achava pouco prático ficar muito tempo se arrumando e se maquiando, tinha hora para chegar e esse ritual da vaidade lhe tirava um tempo precioso, mas nesse dia ela se olhou no espelho mais de uma vez.
Ela nunca se achou bonita, todos diziam que era simpática e de uma beleza interior exuberante. Seu cabelo era simples, castanho, fios retos que se partiam no meio da cabeça e desciam como uma cascata até o meio das costas, todavia deixava sempre preso, como dizia, dava menos trabalho. Tinha o rosto estreito, olhos pequenos e inexpressivos e um sorriso de dentes brancos como marfim e igual a tantos outros, entretanto ela tinha algo único, sua alma, sua boa alma, que transparecia em seu sorriso e no seu olhar.
Nunca teve um corpo escultural, seus seios eram como os de uma menina nos primeiros passos da maturidade, seus quadris eram estreitos, era magra e apesar de despertar uma certa inveja em outras moças de sua idade (comia de tudo e não engordava) se achava insípida.
Era considerada pelos amigos e familiares uma ótima pessoa, de bom coração, carinhosa e que logo encontraria alguém que enxergasse sua beleza interior. Mas ela não acreditava nisso, ela sabia que os homens só vêem o que está ao alcance dos olhos, não observam a alma das mulheres. Porém, nessa manhã, se viu refletida mais uma vez, como se estivesse dando adeus a si mesma.
Estava feliz nessa manhã, feliz como nunca estivera antes. Dentro de poucos dias ia realizar seu maior sonho, um sonho que veio de forma inesperada (mas não são esses os melhores, como nos contos de fadas?), por isso a despedida ao ver sua imagem no espelho. Nesse momento ela se deu conta de que estava dizendo adeus, adeus a Bárbara insignificante, a Bárbara que não despertava olhares e paixões, a Bárbara que passava invisível no meio da multidão. Dava adeus a essa Bárbara e dava, ao mesmo tempo, as boas vindas a uma nova mulher, uma mulher que viveria grandes amores, que sairia desse corpo sem graça como uma linda borboleta que desabrocha de uma horrenda lagarta.
Tudo aconteceu de repente, ao reencontrar uma grande amiga, descobriu que ela trabalhava na casa de um famoso cirurgião plástico. Um dia, ao visitá-la, foi vista por ele, que imediatamente se encantou por ela. Quando voltou para casa não se agüentava de felicidade, nunca tinha sido notada e quando isso aconteceu foi pelo homem que mudaria sua vida. Não, ela não o via como um príncipe encantado, na verdade ele prometeu que faria todas as plásticas que ela quisesse sem cobrar, dizia que viu um brilho intenso em seus olhos, como o brilho da alma e seria um prazer colocar para fora esse brilho, ele disse que seria sua obra prima, esculpiria seu corpo como os escultores esculpiam o mármore. Poderia morrer naquele momento que morreria feliz. Não, morreria depois do sonho realizado, se tivesse que morrer, que morresse linda.
E chegou o grande dia, o dia que sua vida mudaria para sempre. Não fazia grandes planos, apenas saboreava essa felicidade que transbordava do seu corpo em pequenos goles e que eram doce como o mais saboroso vinho.
Despertou na manhã seguinte com muitas dores, não se lembrava de muita coisa, só de um entra e sai de corredores brancos e gelados e de uma sala cheia de aparelhos e mais nada. Ao acordar se sentia inchada, cheia de dores pelo corpo e parecendo uma múmia daqueles antigos filmes de horror.
Teve rápida recuperação, logo tiraria os curativos e teria alta. O médico disse que não iria se reconhecer. Ele colocou próteses de silicone nos seios e quadris, aumentou os glúteos, com o auxílio de um amigo que era dentista levantou as gengivas e serrou os dentes (estão como nos comerciais de creme dental) e pôs silicone nas maçãs do rosto. Logo sairia do casulo e voaria alto como uma linda borboleta...
(Continua na próxima semana.)

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