Olho para a folha em branco. Nada de novo me vem ao pensamento, ele está vazio como a garrafa de gim que me serviu de consolo há meia hora atrás. Procuro inspiração na tv, mas são três horas da tarde e não há nada de inspirador nesses programas de auto-ajuda com mães desesperadas e esposas histéricas. Me levanto um pouco e vou até a janela. Olho para a rua. Daqui de cima as pessoas são apenas pontos negros num passar ligeiro por entre carros estacionados na calçada e os que passam pela rua em alta velocidade. Acendo um cigarro e fico pensando no que vai acontecer se não entregar um novo livro no prazo estipulado. Livro por encomenda. Arte por encomenda. Algo como esse cigarro que se acaba entre meus dedos, que não passa de um produto feito em escala industrial. Assim é minha arte, arte de consumo.
Diziam que eu era o mais promissor da minha geração, o mais criativo. Ora criativo! O que diriam agora os intelectuais que enalteceram minha criatividade? A criatividade esvaziou como a garrafa de gim. E não se pode comprá-la numa loja de conveniência dum posto de gasolina qualquer. O cigarro acaba e a tarde vai também se acabando num ritmo lento. Não dá para saber ao certo se a natureza caminha mais devagar esperando minha inspiração, essa mais lenta, ou se quer me mostrar todo o seu trajeto a cada passo, a cada segundo, mostrar que por mais que eu espere nada mais vai vir.
Procuro desviar o olhar do computador. Não consigo encarar essa folha em branco. Folha virtual, mas uma folha. Eu não agüento olhar em seus olhos e ouvi-la dizer “você é uma farsa, um blefe, não existe talento nessa cabeça, a fonte se esgotou como uma garrafa de gim, você é um fracasso”. Não, não agüento essa acusação. Pego as chaves de casa. Não sei por que, apenas pego. Resolvo ir para a rua, respirar, olhar as pessoas, tentar ler em seus olhares suas histórias, seus segredos, quem sabe encontrar a minha história, para preencher a folha em branco acusadora do meu desespero.
Saio do prédio sem saber ao certo para onde ir. Tento me distrair, não pensar muito na folha em branco, que me assombra com seu vazio acusador. Olho para o auto, para a janela do meu apartamento. É um movimento mecânico, sem um motivo aparente, apenas penso, será que vou conseguir voltar a escrever? Será que vou preencher aquela folha em branco e vencê-la? Vou corresponder às expectativas dos que pensam que sou um escritor criativo? O mais promissor da minha geração? Caminho sem um rumo definido, apenas caminho. Olho os rostos das pessoas, seus semblantes carregados, seus olhares tensos. Tento tirar algo dessas pessoas, suas almas, seus temores, alegrias, algo que possa me servir como arma para vencer aquela folha em branco em meu apartamento que agora está vazia como a garrafa de gim que me consolou horas atrás e que não passa de um produto como os meus livros, minha arte de consumo feita em escala artesanal para uma editora de escala industrial.
Chego a uma praça que não conhecia e que fica a poucos metros do meu prédio. Onde ela estava antes de hoje? Onde eu estava que não a conhecia. Vejo crianças brincando, suas mães e babás próximas para evitar qualquer acidente mais grave. Brincadeiras vigiadas, controladas, pobres crianças, nem imaginam que nunca vão sair desse controle. Hoje das mães e babás, amanhã da sociedade. Vejo velhos conversando, lembrando das glórias do passado. É tudo que lhes restam, seu passado. Ficam sentados esperando um fim que chega lento como a tarde que se esvai como a fumaça do meu cigarro que novamente acendi. Olho para tudo isso tentando achar algo para saciar a voracidade da folha em branco no meu computador.
Vejo um banco próximo a dois senhores de cabelos de prata. Fico olhando a praça sem me fixar em nenhum ponto. Tento ouvir suas histórias, suas conquistas amorosas que não passam de lembranças amargas de uma juventude que se foi lentamente como a fumaça do cigarro e a garrafa de gim. Bebo suas palavras, cada frase, cada memória. Bebo para saciar a sede da minha cabeça, que está vazia, cheia apenas do gim e do cigarro que se consome entre meus dedos. Fico meia hora. Estou impaciente, vou em direção a loja de conveniência na esquina do meu prédio comprar outra garrafa de gim. Não posso comprar inspiração, que para os outros eu tenho muita, mas no momento não consigo encontrá-la, então comprarei outra garrafa de gim para me ajudar a enfrentar a folha em branco no meu apartamento.
Volto para casa e olho a folha em branco na minha frente. Bebo um gole da garrafa de gim. Penso nas babás, nas mães, nas crianças vigiadas, nos velhos e suas palavras mofadas. Começo a escrever qualquer coisa para vencer a folha em branco, em branco como minha imaginação. Surge uma frase, outra. Começo a derrotá-la. Não sei o que vai acontecer, não sei o que estou escrevendo. Só escrevo. Palavras. Há muito tempo já usadas pelos velhos, mães e crianças vigiadas. Como o texto vai acabar, não sei, não importa. O que apenas importa é que não terei mais a minha frente uma folha em branco. Que começa a ficar cheia, diferente da garrafa de gim.
Diziam que eu era o mais promissor da minha geração, o mais criativo. Ora criativo! O que diriam agora os intelectuais que enalteceram minha criatividade? A criatividade esvaziou como a garrafa de gim. E não se pode comprá-la numa loja de conveniência dum posto de gasolina qualquer. O cigarro acaba e a tarde vai também se acabando num ritmo lento. Não dá para saber ao certo se a natureza caminha mais devagar esperando minha inspiração, essa mais lenta, ou se quer me mostrar todo o seu trajeto a cada passo, a cada segundo, mostrar que por mais que eu espere nada mais vai vir.
Procuro desviar o olhar do computador. Não consigo encarar essa folha em branco. Folha virtual, mas uma folha. Eu não agüento olhar em seus olhos e ouvi-la dizer “você é uma farsa, um blefe, não existe talento nessa cabeça, a fonte se esgotou como uma garrafa de gim, você é um fracasso”. Não, não agüento essa acusação. Pego as chaves de casa. Não sei por que, apenas pego. Resolvo ir para a rua, respirar, olhar as pessoas, tentar ler em seus olhares suas histórias, seus segredos, quem sabe encontrar a minha história, para preencher a folha em branco acusadora do meu desespero.
Saio do prédio sem saber ao certo para onde ir. Tento me distrair, não pensar muito na folha em branco, que me assombra com seu vazio acusador. Olho para o auto, para a janela do meu apartamento. É um movimento mecânico, sem um motivo aparente, apenas penso, será que vou conseguir voltar a escrever? Será que vou preencher aquela folha em branco e vencê-la? Vou corresponder às expectativas dos que pensam que sou um escritor criativo? O mais promissor da minha geração? Caminho sem um rumo definido, apenas caminho. Olho os rostos das pessoas, seus semblantes carregados, seus olhares tensos. Tento tirar algo dessas pessoas, suas almas, seus temores, alegrias, algo que possa me servir como arma para vencer aquela folha em branco em meu apartamento que agora está vazia como a garrafa de gim que me consolou horas atrás e que não passa de um produto como os meus livros, minha arte de consumo feita em escala artesanal para uma editora de escala industrial.
Chego a uma praça que não conhecia e que fica a poucos metros do meu prédio. Onde ela estava antes de hoje? Onde eu estava que não a conhecia. Vejo crianças brincando, suas mães e babás próximas para evitar qualquer acidente mais grave. Brincadeiras vigiadas, controladas, pobres crianças, nem imaginam que nunca vão sair desse controle. Hoje das mães e babás, amanhã da sociedade. Vejo velhos conversando, lembrando das glórias do passado. É tudo que lhes restam, seu passado. Ficam sentados esperando um fim que chega lento como a tarde que se esvai como a fumaça do meu cigarro que novamente acendi. Olho para tudo isso tentando achar algo para saciar a voracidade da folha em branco no meu computador.
Vejo um banco próximo a dois senhores de cabelos de prata. Fico olhando a praça sem me fixar em nenhum ponto. Tento ouvir suas histórias, suas conquistas amorosas que não passam de lembranças amargas de uma juventude que se foi lentamente como a fumaça do cigarro e a garrafa de gim. Bebo suas palavras, cada frase, cada memória. Bebo para saciar a sede da minha cabeça, que está vazia, cheia apenas do gim e do cigarro que se consome entre meus dedos. Fico meia hora. Estou impaciente, vou em direção a loja de conveniência na esquina do meu prédio comprar outra garrafa de gim. Não posso comprar inspiração, que para os outros eu tenho muita, mas no momento não consigo encontrá-la, então comprarei outra garrafa de gim para me ajudar a enfrentar a folha em branco no meu apartamento.
Volto para casa e olho a folha em branco na minha frente. Bebo um gole da garrafa de gim. Penso nas babás, nas mães, nas crianças vigiadas, nos velhos e suas palavras mofadas. Começo a escrever qualquer coisa para vencer a folha em branco, em branco como minha imaginação. Surge uma frase, outra. Começo a derrotá-la. Não sei o que vai acontecer, não sei o que estou escrevendo. Só escrevo. Palavras. Há muito tempo já usadas pelos velhos, mães e crianças vigiadas. Como o texto vai acabar, não sei, não importa. O que apenas importa é que não terei mais a minha frente uma folha em branco. Que começa a ficar cheia, diferente da garrafa de gim.
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