domingo, 6 de maio de 2007

O GUARDANAPO (PARTE FINAL)

(Continuação...)
Madureira se aproximava. Mais alguns pontos e Alberto iria saltar. Estava cansado. Queria dormir. Lembrar do que aconteceu ou esquecer-se de vez dessa noite. Seu ponto chegou. Ele levantou e ao descer da condução o ébrio rapaz levou um choque. Não podia acreditar no que via. Isso era impossível. Ele começou a questionar a sua própria lucidez. Ao colocar os pés na calçada e o ônibus partir para seu destino ele viu novamente aquele homem. O homem misterioso com sua capa de chuva, seu chapéu de gangster a fitá-lo do outro lado da rua. Estava parado com as mãos no bolso. Mas como ele poderia estar ali se o tinha visto descer no Méier? Como havia chegado lá tão rápido? E como poderia saber que ele saltaria exatamente naquele ponto? Alberto ficou tão transtornado e ao mesmo tempo assustado que não conseguiu mover um músculo. Não teve qualquer reação de atravessar a rua estreita que os separava. Mesmo sua mente dizendo que deveria atravessar a rua e descobrir quem era esse homem, suas pernas simplesmente não obedeciam. E eles ficaram ali, frente a frente. Encaravam-se. Quando finalmente o rapaz conseguiu sair de sua letargia devido ao susto e foi mudar de calçada, o homem da capa virou-se para a esquina. Foi andando rápido e desapareceu novamente noite adentro. Alberto ainda correu atrás dele para ver se o alcançava, mas foi em vão. Ele já havia sumido como que por encanto.
Aquilo estava tomando um rumo muito estranho. Alberto não conseguia pensar direito. Começou a caminhar na direção de sua casa, que ficava na mesma rua que havia acontecido o encontro, ele estava começando a ficar apavorado. O que significava tudo aquilo, ele não sabia. O que aquele homem queria com ele, muito menos. Porém o rapaz queria respostas. Resposta do que havia acontecido naquela noite e que não conseguia lembrar. Respostas daquele homem que o seguia. Queria apenas respostas. E quem poderia dá-las era a mulher do bar. Tirou o telefone do bolso. Assim que chegasse em casa ligaria para ela e esperava que tudo se esclarecesse; não iria esperar até de manhã, resolveria tudo ainda naquela noite.
Então Alberto atravessou rapidamente a esquina que há poucos minutos atrás o misterioso homem havia desaparecido. Seguiu rua acima, que no seu estado de agitação parecia muito mais longa do que já era. Ele morava exatamente no meio da rua, na parte mais alta. Não era bem uma ladeira, era mais uma pequena elevação, ma naquele momento parecia o Monte Everest. Assim que chegou ao seu portão olhou para trás na esperança de ver aquele homem novamente. Não havia ninguém. No seu intimo houve uma certa tranqüilidade por isso. Entrou em casa, foi direto para o banheiro lavar o rosto. A água fria o reanimou. Ele sentia que o efeito da bebida já havia passado quase que totalmente. Já conseguia pensar de forma mais clara. Só o intrigava o fato de ainda não se lembrar o que tinha feito naquela noite, porém de alguma maneira sabia que aquele sujeito que vinha o seguindo noite adentro tinha alguma ligação com tudo aquilo.
O rapaz foi para o quarto, procurou o guardanapo amassado com o telefone da tal mulher. Havia apenas um possível primeiro nome – Tânia – e o número. Ele sentou-se na cama, que ficava em frente à janela, tirou o fone do gancho e paralisou. Em frente a sua porta, parado estava ele, o homem misterioso. Ele acenava para Alberto chamando-o. Alberto ficou mais intrigado e assustado. Como ele poderia ter entrado em seu quintal se o portão da frente estava fechado e o muro era muito alto para alguém pular. Ele então se dirigiu a porta muito amedrontado, mas mesmo assim foi. Sua curiosidade era maior que seu medo e ele queria saber o que estava acontecendo, o que esse homem queria com ele.
Quando Alberto abriu a porta o homem entrou sala adentro e se posicionou no canto mais escuro. Não tirou o chapéu. Alberto tentou ver seu rosto, mas ele se esquivou. Então Alberto perguntou:
- O que você quer comigo?
- Eu vi o que você fez! – Disse o homem.
- E quem é você? O que você viu que eu fiz?
- A culpa foi sua, toda sua. Aquele homem quase morreu. Você é um animal, deve ser preso como todo animal selvagem. Você se descontrolou e agora aquele homem pode morrer.
- Mas o que foi que eu fiz? Que homem é esse? Não sei do que você está falando. – Alberto estava se desesperando. Já começava a perder o controle, se esse sujeito na sua frente falasse não falasse logo o que tinha para dizer ele não responderia por si.
- Estou aqui para que você seja punido. – disse o homem de capa – estou aqui para lhe mostrar o que há de pior dentro de você. Foi pó r causa dela, da Tânia, uma mulher que você nem conhecia. Foi por isso que perdeu o controle. Por causa de uma prostituta. Ela precisava se livrar de alguém e você a ajudou. Ajudou uma vagabunda e quase matou um homem.
- Eu não fiz nada disso. Não sei quem é Tânia. Conta logo, por que você vem me seguindo!
- Tânia, a mulher que lhe deu esse guardanapo. Você não se lembra. Ela se aproximou de você no bar. Você estava sozinho. Queria afogar as mágoas. Aproveitou a festa para se distrair, mas não estava conseguindo. Ela pediu um drink, um copo de tequila. Você pagou. Não pensava em mais nada, apenas na possibilidade de não ficar só essa noite. Estava tão embevecido por sua beleza selvagem. Por sua sensualidade lasciva que nem notou quando ela colocou uma droga em sua bebida. Nem percebeu que só enxergava um trouxa para arrancar dinheiro. Tanto não percebeu suas intenções que quando seu cafetão chegou para lhe cobrar o programa anterior, você não pensou duas vezes em defendê-la. Não imaginou que aquele sujeito era tão sujo e sórdido quanto ela e que era não só seu patrão, como também seu amante. Vocês dois discutiram. Você perdeu o controle. Começaram a brigar. Houve tumulto. Correria. Que ela aproveitou para fugir de vocês. Você o jogou no chão, sentou em seu peito e começou a esmurrar a sua cara. Começou a perder o controle. Os seguranças tentaram contê-lo, porém era tarde demais. Você já tinha liberado este monstro que tem dentro de você. Você não parava. Não conseguia enxergar. Só via o vermelho do sangue. Apenas batia, batia, batia, até transformar a cara do sujeito numa pasta de sangue e ossos quebrados. Teve que vir seis seguranças para lhe segurar. Vieram tarde, o homem há muito tempo já estava inconsciente. Quando os seguranças iam chamar a policia, você se esquivou e saiu à surdina de lá.
- Como você pode afirmar isso. – Disse Alberto, já completamente sóbrio e com um olhar sombrio, e tentava reconhecer aquela voz que lhe soava tão familiar, só não conseguia lembrar de onde a conhecia.
- Eu estava lá. Estava com você o tempo todo. Eu tentei lhe avisar para não beber com aquela mulher. Eu tentei te impedir de se envolver na discussão. Tentei ainda evitar que você brigasse, mas você não me ouviu. E eu venho há noite inteira te acompanhando, como sempre faço, para tentar lhe mostrar o que você fez. Para tentar impedir que você faça essa besteira novamente.
- Mas como você estava lá comigo. Eu fui sozinho. Só notei você atrás de mim na Rio Branco... Espera aí, quem é você realmente? – E enquanto perguntava, Alberto foi pra cima do homem e arrancou seu chapéu. Ele não ofereceu resistência alguma e Alberto deu um passo para trás assustado. Ele não tinha reação. Não era possível que aquilo estivesse acontecendo com ele. Era surreal. Aquele homem, aquele homem que vinha seguindo-o por toda noite, tinha o seu rosto. Na verdade era ele mesmo, mas como era possível? E gaguejando e com um fio e voz que buscou lá no fundo do seu ser perguntou:
- Quem, quem é você?
- Sua consciência, Alberto. Sua consciência...
Alberto se levantou num susto. Era dez e meia da manhã. Uma linda manhã de sábado. Ele estava com dor de cabeça. Tinha tido um pesadelo. Foi ao banheiro, lavou o rosto tentando entender aquele sonho da noite passada. Um sonho estranho. Foi em direção a cozinha preparar um café. Estava realmente com muita dor e muito cansado. Havia chegado tarde em casa, tinha ido a uma festa e tinha bebido demais. Vai ver era por isso que tinha tido aquele sonho. Decidiu parar de beber, pelo menos nas próximas semanas. Ainda pensava no sonhe esquisito que havia tido quando sentou no sofá para tomar sua xícara de café. Viu um papel amassado no chão. Pegou para jogar no lixo, mas antes abriu para ver se era algo importante. Quando abriu deixou a xícara cair no chão. Estava lívido. No papel tinha um telefone e um nome: Tânia.

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