segunda-feira, 21 de maio de 2007

A VOLTA (PARTE II)

(Continuação.)
Seu coração bateu mais forte e Mauro quase não conseguiu controlar uma lágrima que teimou em cair quando avistou pela janela a placa “Bem-vindo a São Raimundo Nonato”. Ele havia chegado. No principio parecia que nada havia mudado. As mesmas casas nos mesmos lugares. A pista era nova, conseqüências do progresso, mas ainda tinha o mesmo cheiro, a mesma cor. Passou pela casa de sua infância, no alto da ladeira, pensou em pedir ao motorista para parar ali mesmo, não se agüentava de ansiedade, estava a ponto de explodir, mas se conteve, queria descer na rodoviária, olhar novamente sua terra, queria que sua chegada fosse como no sonho que teve no avião.
A van parou. Era o fim. Estava em casa novamente. Era o filho pródigo, tinha voltado para mostrar o seu sucesso no sul maravilha, tinha voltado para reforçar seus laços com o passado e tinha voltado pra Flavinha. Como ela deveria estar? Será que se lembraria dele? Quando ainda morava lá e ainda era um rapazinho cheio de hormônios e timidez não teve coragem de se declarar a ela, mas tinha a certeza de que ela enxergava em seus olhos o amor que sentia. Mauro pegou sua bagagem, pôs no chão e por um instante contemplou a cidade ao seu redor. A rodoviária estava mudada, porém os bares em torno dela eram os mesmos. A van saiu e ele começou a juntar suas coisas para dar os primeiros passos rumo a sua história, ao reencontro consigo mesmo.
Mauro atravessou a rua e se dirigiu à sua antiga casa. E foi nesse momento que começou a reparar que a cidade havia mudado, muitos lugares que marcaram sua vida não existiam mais. Ele parou em frente ao local onde era o antigo cinema. No mesmo instante se lembrou das matinês do tempo de menino, das tentativas de entrar pelos fundos onde havia um pequeno córrego para ver filmes proibidos para sua idade. Tudo agora está só na memória, o cinema não existia mais, em seu lugar foi aberta uma loja parecida com as lojas de departamentos do Rio, com seções de cama, mesa e banho, vestuário e brinquedos. Continuou andando e nessa jornada começou a sentir um aperto no coração, olhava para os lados e não reconhecia mais nada, tudo havia mudado. A loja de secos e molhados do seu tio agora abrigava uma lanchonete, o bar onde costumava se encontrar com os amigos para conversar, tomar sorvete e onde aprendeu a beber agora era uma lan house. O mundo virtual havia invadido o seu passado. Entretanto sua maior decepção foi quando chegou em frente a Praça do Relógio, o ponto central da cidade. Mauro não podia acreditar no que estava vendo, seus olhos começaram a transbordar de lágrimas e não conseguiu conter o choro. O obelisco enorme com seu imponente relógio de quatro faces, que servia de referência para todos os moradores, ponto de encontro nas noites de outrora, não estava mais lá. Haviam tirado a sua maior lembrança, seu farol. No seu lugar existia agora uma praça com arcos romanos, horrorosa, uma ferida na face de sua tão bela cidade. E enquanto continuava andando ele foi se dando conta que sim, se lembrava do caminho, mas a cidade era outra. A maternidade onde havia nascido era agora uma residência, mais a frente, a ponte onde tinha tirado a foto com seu pai era apenas ornamental, não havia mais rio, ele tinha sido aterrado e começavam a aparecer construções no lugar. Sua cidade estava se favelizando.
Quando chegou ao pé da ladeira seu coração teve um alívio no descompasso. Lá nada havia mudado. A única coisa diferente na paisagem era uma praça em frente a casa de sua avó, mas que não comprometia a beleza do lugar. Mauro foi subindo a ladeira, apesar da tristeza de ver a cidade tão mudada estava feliz de ter voltado, até minimizava um pouco sua decepção.
Chegou em frente a casa. Seu coração estava acelerado. Viu que tinham colocado uma campainha. Após o estridente som de sinos uma moça bem jovem veio ao portão. Não sabia quem era, não a conhecia então perguntou:
- A Dona Josefa ou o Seu Honório estão? Ao ouvir a pergunta e com cara de espantada de ter um estranho com uma mala procurando por eles falou, um tanto desconfiada:
- Você é alguma coisa deles moço?
- Sou neto deles, eles estão?
- Moço, não sei quanto tempo o senhor está sem falar com eles, mas eles já morreram. A Dona Josefa morreu tem cinco anos e o Seu Honóro morreu tem oito anos.
- Como assim morreram, ninguém falou nada pra gente! E os filhos deles, o Pedro, a Gertrudes e o Antonio, ainda moram no mesmo lugar?
- Não os filhos deles se espalharam por aí. A mais velha já tinha ido embora a um tempão pro Rio de Janeiro, nem cheguei a conhecer ela...
- É, a minha mãe, nós saímos daqui a vinte anos atrás.
- Então, os outros, foram embora depois que os pais morreram. Um, eu acho, tá em Salvador, a Dona Gertrudes eu sei que foi pra Brasília tem um ano, mas não deixou o endereço e o Seu Pedro nem sei pra onde foi. A Dona Gertrudes foi a última a se mudar e me vendeu a casa e não tive mais contato com ninguém.
- Tá bom então, muito obrigado. Você sabe se tem algum hotel ou pousada por aqui?
- Lá do lado da Papelaria Real tem um hotelzinho bem massa, na verdade é o único da cidade, mas é bem limpinho!
- Tudo bem então, muito obrigado, essa papelaria fica no centro mesmo?
- É, depois um tantinho da rodoviária, na avenida mesmo.
- Ta bom então, tchau! E assim Mauro foi voltando o caminho que acabara de fazer. Não pensou nessa possibilidade, de não ter mais ninguém lá. Começava a achar que sua viagem tinha sido inútil. Não tinha mais qualquer elo com o lugar. A cidade havia mudado, seus tios e avós não moravam mais lá, só lhe restava Flavinha, que ele também começava a achar que não seria como nos seus sonhos.
(Continua na próxima semana.)

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