segunda-feira, 28 de maio de 2007

A VOLTA (PARTE FINAL)

(Continuação)
Foi pensando assim que o rapaz foi se dirigindo ao hotel. Realmente era fácil de achá-lo. No caminho ele olhava os rostos das pessoas e não reconhecia em seus traços qualquer semelhança com pessoas do seu passado e eles também eram indiferentes, ninguém conhecia e não tinha qualquer interesse em conhecer aquele forasteiro que estava andando pela cidade, provavelmente era mais um pesquisador que ia conhecer a serra. Mauro se hospedou no hotel e foi direto para o quarto. Estava cansado física e emocionalmente, não esperava que sua viagem tivesse tomado esse rumo. Tomou um banho, pediu um lanche no quarto, ficou na cama vendo tv, só desceu para jantar e depois voltou para dormir. Não tinha coragem de procurar Flavinha naquele dia, não sabia se suportaria mais alguma decepção, preferiu reunir forças, descansar e decidiu sair bem cedo, logo pela manhã para ir a casa dela. Ainda lembrava o caminho, mas depois do que lhe aconteceu, não significava muita coisa.
O telefone do quarto tocou logo cedo. Mauro ainda estava mais dormindo que acordado quando ouviu do outro lado da linha uma voz de sotaque carregado dizendo:
- Senhor Mauro? São oito em ponto, o senhor pediu para lhe acordar nesse horário. O café já está servido e fica até às dez horas, se o senhor preferir podemos mandá-lo ao seu quarto.
- Não, muito obrigado, já vou descer.
- Tudo bem senhor, tenha um bom dia, se precisar de um guia e só solicitar-nos.
- Tudo bem, não vou precisar não, bom dia.
Um guia. Mauro ficou pensando na indicação, precisava de um guia, mas não de forma convencional, ainda sabia andar pela cidade, as ruas não mudaram de lugar. Precisava, sim, era de alguém para lhe guiar pelas mudanças que se abateram lá.
Depois do café ele começou a caminhar pela avenida em direção a casa de Flavinha. Ainda lembrava o caminho, se é que ela ainda morava com seus pais, mas pelo menos teria alguém para lhe indicar o paradeiro dela. A rua ainda era a mesma. No fim da rua principal, virando à esquerda e depois à direita, ele tinha que seguir, passar pela igreja, a praça paroquial e três casa depois estaria na casa da família dela. Ele foi olhando o caminho. Nesse trecho da cidade não teve qualquer mudança. Provavelmente os moradores das casas são outros, mas as fachadas ainda são as mesmas. A igreja e sua praça também não tinham sofrido qualquer mudança. Olhou para o coreto abandonado e se viu menino, correndo pelo gramado, subindo nos bancos de concreto, brincando com seus primos num domingo ensolarado. Primos que não via há muito tempo e que não tornaria a ver.
Mauro chegou em frente a casa. A mesma ansiedade da véspera voltou, mas já não tinha a mesma ilusão. Bateu palmas, não havia campainha no portão. De lá de dentro veio uma mulher, provavelmente da sua idade, um pouco envelhecida pelo trabalho doméstico, mas ainda assim bonita. Ela veio até o portão ver o que queria aquele estranho em sua porta. No princípio ele não a reconheceu, até que mais perto, quando ela chegou no portão e o estranho viu seus olhos. Os mesmos olhos de vinte anos atrás, com a mesma doçura, apesar da vida difícil, com o mesmo brilho que fez com que se apaixonasse perdidamente. Ao vê-la não conseguiu falar. Era ela que estava ali na sua frente. A viagem não tinha sido em vão. Ela por sua vez não entendia por que aquele homem estava no seu portão com lágrimas nos olhos, sorrindo para ela e mudo. Ele criou coragem e falou:
- Voltei para cumprir minha promessa. Vim pra te levar pra morar no Rio.
Num primeiro momento Dona Flavinha, como era conhecida agora, não entendeu nada, promessa, que promessa? O que esse sujeito estava falando, porém, como se tivesse sido aberta uma cortina para o passado ela se viu com dezesseis anos e aquele homem de quase quarenta anos se transformou em Maurinho, seu amigo e amor secreto. Ela não se conteve, abriu o portão e pulou em seus braços, apertando-o como se dessa forma compensasse todos os anos que ficaram separados por um país de distância.
Eles entraram. A casa ainda era a mesma, mas a decoração havia mudado. Ela falou que seus pais tinham ido viver em São Luiz do Maranhão e ela ficou com a casa. Disse que casou, teve filhos, tinha virado dona de casa. Ele por sua vez falou de sua carreira como acadêmico numa conceituada universidade do Rio. Contou como foi sua vida lá, sua tristeza de ter ido embora e o seu desejo de reencontrá-la. Então falou o que não teve coragem há vinte anos atrás:
- Nesse anos todos me envolvi com alguma mulheres, mas nenhuma conseguiu tirar você da minha cabeça. E a todo o momento lembrava da promessa que eu fiz pra você quando fui embora e de como me doeu não ter me declarado a você. Eu te amo desde aquela época e nunca te esqueci. E eu vim pra tentar recuperar o tempo perdido, te levar pra ser minha mulher, viver comigo no Rio, diz que aceita, diz que me ama e que é isso que você quer.
Flavinha ouviu com ternura tudo que Mauro disse. E realmente se sentiu por um instante tentada a largar tudo, casa, filhos, marido, e partir nessa viagem, mas ela não era dada a acessos de paixões, então ela olhou nos olhos de Mauro e disse:
- Desde que éramos meninos, eu te amava e sabia que você também, eu via nos seus olhos. Eu passava noites em claro pensando quando você ia se declarar ou se eu teria coragem de fazer isso. Quando você foi embora eu sofri muito. Fiquei anos esperando uma carta sua que nunca chegava. Até que eu passei a acreditar que você havia me esquecido. Você tava no Rio de Janeiro, convivendo co mulheres lindas, nunca ia ficar pensando numa caipira como eu...
- Mas eu pensava em você o tempo todo!
- Não pense que estou te cobrando nada, deixa eu terminar, por favor! Então eu procurei te esquecer também. Nessa época eu comecei a me aproximar de Jorge, primo de Sorlene, minha amiga. Nós ficamos amigos, eu abri meu coração pra ele e acabamos nos apaixonando. Bem, eu achei lindo o que você fez, de ter vindo aqui cumprir sua promessa, agora tenho certeza que meu amor por você era correspondido, mas era um amor de crianças e que deve ficar no passado, como uma lembrança de uma brincadeira gostosa. Hoje eu tenho um amor maduro, tenho meus filhos, uma vida que eu não posso e nem quero largar. Eu não vou pro Rio com você, mas você pode ter certeza que nunca vou esquecer essa declaração que você fez, nunca vou esquecer do nosso passado e saiba que mesmo não tendo mais ninguém da sua família por aqui eu sempre vou estar aqui, no mesmo lugar, sempre que você precisar de uma amiga.
Mauro ouviu essas palavras, triste, não era assim que ele havia imaginado que seria. Ele achava que Flavinha largaria tudo para ir embora para o Rio. Ele não tinha mais nada que fazer ali. Despediu-se com um sorriso no rosto e uma lágrima no coração. Não olhou para trás e não viu a lágrima que caia do rosto de Flavinha quando ele foi se afastando. Desiludido, Mauro parou na rodoviária e procurou saber qual o primeiro ônibus ou van que sairia para Petrolina naquele dia. Não tinha por quê ficar mais tempo na cidade, essa não era mais sua cidade. Soube que sairia um ônibus dali a uma hora, tempo mais que suficiente para voltar ao hotel, pegar sua mala e encerrar a conta.
No caminho de volta para Petrolina ele foi pensando em tudo o que aconteceu, em como os elos com o seu passado foram corroídos pela ferrugem do tempo, pelo não cultivo das relações. E pensou também nas palavras de Flavinha. Foi então que percebeu que ela tinha razão. Eles não eram mais os mesmos, ele não era mais o Maurinho, ela não era mais a Flavinha, era Dona Flávia e não se adaptaria ao Rio e seu ritmo acelerado. E da mesma forma que eles mudaram, a cidade e a vida das pessoas de lá também mudou. A cidade não era mais a mesma porque nada é o mesmo por toda a vida, tudo muda, as pessoas e as cidades. Seu coração não estava mais triste, não havia mais dor porque sua cidade, como se lembrava, continuava a existir nas suas lembranças, nos seus sonhos e estava em seu devido lugar, no seu passado, na história da sua infância e sempre estaria lá quando ele quisesse voltar. E de qualquer forma ele ainda teria uma amiga para quando quisesse voltar para essa nova São Raimundo que tinha muito que lhe mostrar, essa nova dama, renovada e também bonita, tinha ainda sua doce Flavinha, que seria a ponte entre a sua infância e o seu futuro. E com certeza ele ia voltar, não para rever, mas para conhecer esse novo e misterioso lugar, que ele aprenderia a amar e quem sabe ainda não houvesse alguma coisa de seu, até porque tudo muda, mas as ruas continuam no mesmo lugar.

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