domingo, 13 de maio de 2007

A VOLTA (PARTE I)


Fazia vinte anos que Mauro não voltava a sua cidade natal. Ele tinha ido morar no Rio de Janeiro com apenas dezesseis anos, foi com seus pais que iam tentar a sorte no sul maravilha. Deixou para trás amigos, parentes, paixões. Lá na cidade grande estudou, formou-se, ganhou dinheiro, apaixonou-se, mas nunca esqueceu da promessa que tinha feito para Flavinha, sua amiga e primeiro amor. Dizia que um dia iria voltar para buscá-la e levá-la para morar no Rio e estava agora voltando para cumprir a promessa. Foi no avião imaginando como tudo aconteceria, imaginava diálogos, reencontros, lembrava-se de lugares que ficaram para sempre em sua memória. Ainda guardava a lembrança das ruas pequenas, das casas baixas, da ponte onde tirou uma foto com seu pai ainda pequeno, lembrava da praça em frente à paróquia onde costumava brincar com seus primos na infância e paquerava as meninas na adolescência, sentia saudades do clube onde brincava o carnaval e que tentava pular o muro nos bailes de debutantes. Imaginava tudo como havia deixado, queria que nada tivesse mudado, estava ansioso e ao mesmo tempo feliz de poder voltar para onde havia crescido, onde havia deixado de ser criança para virar homem no lupanar de Dona Santinha, de onde viveu diabruras e peraltices de menino e traquinagens de garoto crescido.
Em todos esses anos não escreveu sequer uma carta para qualquer parente. No começo foi doloroso, não queria ir e não queria manter nenhum contato com ninguém, nem com seu amor imberbe. Quando planejou a viagem pensou em escrever, ver se tinha algum parente ainda lá, porém preferiu fazer surpresa, ia com a certeza de que tudo estava como havia deixado vinte anos atrás. Não havia esquecido o caminho da rodoviária até a casa de sua avó, casa onde ele viveu com seus pais até sair da cidade. Como o vôo era longo Mauro cochilou e foi sonhando com sua chegada à rodoviária, seguindo a avenida principal, passando pela Praça do Relógio, as pessoas vindo cumprimentá-lo após reconhecê-lo, ele seguindo pela avenida de entrada da cidade subindo a ladeira e chegando em frente a casa onde nasceu e cresceu. Já se via no portão sendo recebido pela sua avó, com o mesmo cabelo branquinho e olhos doces de velhinha bondosa. Já sentia seu abraço, via a alegria em seus olhinhos, a festa dos seus tios e familiares. E foi nesse regozijo antecipado que o comandante anunciou a chega em Petrolina. Sua ansiedade aumentou. Em poucas horas estaria de novo em sua amada e saudosa cidade, estaria diante de pessoas que não via há muitos anos, estaria diante de Flavinha, seu amor juvenil, a menina que habitou seus sonhos nos mais doces anos de sua vida.
Ao sair do aeroporto se dirigiu a rodoviária para comprar a passagem até São Raimundo. Sabia que não tinha ônibus para lá toda hora, então quanto mais cedo comprasse, mais rápido sairia, e de qualquer forma teria tempo para fazer um lanche e descansar do vôo. Viu que tinham vans paradas na entrada e com placa para várias cidades próximas, inclusive a sua. Viu que uma estava saindo naquele instante. Achou que essa coincidência era um bom presságio e entrou no veículo. Seu coração batia forte. Achava mesmo que todos podiam ouvir suas batidas. Ele estava a poucas horas de ligar esses vinte anos de separação entre o Mauro maduro, professor universitário, com a carreira consolidada e o Maurinho, menino levado, criado livre nos rincões do sertão nordestino.
Ele sentou na janela para ver o caminho. A van partiu rumo ao seu passado. Mauro foi vendo e recordando cada centímetro de estrada, cada paragem. Reconhecia o cheiro de mato ressecado que só sentira quando vivera lá. Olhava o céu de um azul forte, claro, sem a fumaça dos céus das grandes cidades e o sol, era um sol forte, vivo, quente, inclemente, devido a proximidade da linha do Equador. Não conseguia pensar mais em nada, apenas contemplava a estrada. Parecia que o tempo havia parado, nada havia mudado nesses vinte anos, claro que a estrada estava muito melhor e havia as vans que eram mais confortáveis que os velhos ônibus que circulavam por aquelas estradas, mas as casinhas de pau-a-pique ainda estavam lá, os animais ainda passeavam languidamente pela estrada, os longos espaços de vazio, sem nenhuma casa ou sinal de vida. Até um trecho entre Remanso e São Raimundo era de terra, como se lembrava de quando saiu. A poeira e os solavancos nem lhe incomodavam, tudo era recordação, sua alma estava inundada de nostalgia, uma nostalgia doce, uma nostalgia que tinha o gosto dos doces de leite e umbuzadas da sua avó, tinha o cheiro de cuscuz de milho fresco do café da manhã, tinha a maciez da fruta tirada do pé. E ele não via a hora de rever tudo isso, sentir novamente esses aromas e sabores que ficaram tão distantes e que agora estavam tão próximos, ao alcance dos sentidos.


(Continua na próxima semana.)

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